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Jonathan Lamim

Professor, Escritor e Programador

Linguística computacional e a ampliação da experiência literária

Ler sempre foi um gesto de atenção. Um gesto lento, situado, profundamente humano. No entanto, em um tempo marcado pela abundância de textos — digitalizados, arquivados, replicados e continuamente produzidos —, a leitura literária passa a conviver com um novo desafio: como sustentar a atenção profunda diante do excesso? Como ler quando o horizonte textual se torna vasto demais para o alcance de um único olhar?

É nesse contexto que a linguística computacional e, mais amplamente, as chamadas humanidades digitais passam a se aproximar dos estudos literários. Essa aproximação, porém, não ocorre sem resistência. Como observa Franco Moretti (2007), a leitura literária tradicional sempre se estruturou em torno da proximidade com o texto — o que ele denomina close reading. A proposta de uma leitura orientada por dados parece, à primeira vista, ameaçar esse vínculo íntimo entre leitor e obra.

Da confiança ao desafio no ensino da Língua Portuguesa

Nós, que vivemos a realidade do ensino da Língua Portuguesa, conhecemos bem aquela mistura de pânico e apatia que domina a sala de aula no instante em que anunciamos um tema mais denso — ou apenas menos familiar. Seja na Análise Sintática, na Crase ou na Regência, a reação é quase sempre a mesma.

Para muitos alunos, é como abrir a porta para um labirinto de nomenclaturas herméticas e regras que parecem existir apenas para puni-los em provas. E, na pressa de cumprir cronogramas extensos, nós acabamos iniciando pelo ponto errado: a taxonomia, a exceção, o “bizarro”. Com isso, geramos uma zona de ansiedade capaz de produzir bloqueios de aprendizagem sem que o aluno sequer perceba.

A anatomia do eterno: por que chamamos um livro de clássico?

O mercado editorial é um organismo vivo: milhares de títulos são publicados anualmente, cumprem seu papel de entretenimento e, inevitavelmente, desaparecem nas estantes do tempo. No entanto, existe um grupo seleto de obras que desafia essa lógica de obsolescência e que compõem o chamado cânone literário.

Mas, afinal, o que legitima uma obra a receber o título de clássico?

Ao contrário do senso comum, um clássico não se define pela complexidade excessiva de seu vocabulário ou apenas por sua “qualidade literária” técnica. O escritor italiano Ítalo Calvino, em sua obra fundamental sobre o tema, nos ofereceu a definição mais precisa:

O Alienista: Uma sátira atemporal à loucura da razão

“O Alienista”, uma das mais célebres novelas de Machado de Assis, é uma obra que transcende seu tempo. Publicada originalmente em 1882, a narrativa se desenrola na pacata cidade de Itaguaí, que tem sua rotina abalada pela chegada do Dr. Simão Bacamarte.

Renomado cientista, Bacamarte retorna à sua terra natal com um objetivo nobre e ambicioso: dedicar-se ao estudo aprofundado da loucura e, para tal, funda a Casa Verde, o primeiro hospício da região. O que se segue é uma jornada brilhante e mordaz pelos labirintos da psique humana, da ciência e da própria sociedade.

A hora da estrela (graphic novel): honrando o legado de Clarice

Traduzir a profundidade psicológica, o fluxo de consciência e a metalinguagem de Clarice Lispector para qualquer outra mídia é uma tarefa hercúlea. A prosa da autora, densa e etérea, parece residir em um plano onde as palavras bastam e as imagens poderiam ser redundantes.

No entanto, a graphic novel “A Hora da Estrela”, publicada pela editora Rocco, além de enfrentar o desafio com coragem, venceu-o com sensibilidade e inteligência admiráveis, provando que a união de duas artes pode, sim, expandir a genialidade de uma obra-prima.

Graphic novels: A profundidade da nona arte

No vasto universo da literatura, onde as palavras tecem mundos e personagens ganham vida na imaginação do leitor, um formato singular se destaca por sua capacidade de unir o poder da narrativa textual com a força expressiva da arte visual: a graphic novel.

Longe de ser um mero “livro de quadrinhos para adultos”, a graphic novel representa uma evolução sofisticada da nona arte, oferecendo histórias complexas, maduras e artisticamente ambiciosas que conquistaram leitores e críticos em todo o mundo.