Linguística computacional e a ampliação da experiência literária
Ler sempre foi um gesto de atenção. Um gesto lento, situado, profundamente humano. No entanto, em um tempo marcado pela abundância de textos — digitalizados, arquivados, replicados e continuamente produzidos —, a leitura literária passa a conviver com um novo desafio: como sustentar a atenção profunda diante do excesso? Como ler quando o horizonte textual se torna vasto demais para o alcance de um único olhar?
É nesse contexto que a linguística computacional e, mais amplamente, as chamadas humanidades digitais passam a se aproximar dos estudos literários. Essa aproximação, porém, não ocorre sem resistência. Como observa Franco Moretti (2007), a leitura literária tradicional sempre se estruturou em torno da proximidade com o texto — o que ele denomina close reading. A proposta de uma leitura orientada por dados parece, à primeira vista, ameaçar esse vínculo íntimo entre leitor e obra.
Jonathan Lamim