Na manhã de segunda-feira (29/06), uma apresentadora de telejornal comentou ao vivo a decisão de algumas escolas de dispensar os alunos mais cedo por causa do jogo do Brasil contra o Japão, na Copa do Mundo. A repercussão foi imediata, ela se retratou no mesmo dia, e o assunto seguiu seu curso, como quase tudo segue, hoje, em poucas horas. Não quero discutir aqui o acerto ou o desacerto da fala dela; ela já reconheceu que talvez não tenha se feito clara, e isso me parece suficiente. O que me interessa é a pergunta que ficou no ar depois que a poeira baixou:
Afinal, o que esperamos que a escola seja?
Por trás do mal-entendido havia uma confusão mais antiga do que aquele jogo, mais antiga do que a Copa. É a confusão entre duas palavras que usamos como se fossem a mesma coisa: ensinar e educar. Elas convivem tão coladas no nosso vocabulário que raramente paramos para separá-las. E talvez seja justamente essa separação — feita com calma, sem acusar ninguém — que ajude a entender por que episódios assim mexem tanto com a gente.
Ensinar e educar não nasceram da mesma raiz
As duas palavras carregam, na origem, gestos diferentes. Educar vem do latim, do encontro entre educare — nutrir, criar, fazer crescer — e educere, que significa, literalmente, conduzir para fora. Educar, nesse sentido, é puxar de dentro de alguém aquilo que ainda está em estado de semente: o caráter, o modo de se relacionar, a maneira de habitar o mundo. Já ensinar vem de insignare, ligado a marcar, apontar, indicar. Quem ensina mostra um caminho, transmite um conteúdo, aponta para algo que estava fora do outro e passa a fazer parte dele.
Quando observo isso na prática, a diferença fica nítida. Um professor de matemática ensina a resolver uma equação. Mas a paciência da criança diante do erro, a honestidade de não colar do colega, o respeito por quem pensa diferente, nada disso cabe inteiro no plano de aula, ainda que apareça nele o tempo todo. São coisas que se educam, e que se educam sobretudo pelo exemplo, pela convivência diária, pelo tempo longo de quem cresce ao lado de alguém. Ensino se organiza em currículo. Educação se infiltra na vida.
De quem é, primeiro, cada coisa
Daí vem uma divisão que parece simples, mas é mais delicada do que aparenta. Se ensinar é a transmissão organizada do conhecimento, a escola é o lugar por excelência desse gesto — foi para isso que ela foi inventada, e é nisso que ela é insubstituível. Nenhuma família, por mais dedicada que seja, reúne a formação, o método e o tempo de um corpo docente para ensinar história, física, literatura e tantas outras coisas.
Educar — formar valores, hábitos, afetos, o senso do que é certo e do que não é — começa em casa, muito antes de a criança pisar numa sala de aula, e segue acontecendo ali todos os dias, mesmo quando ninguém está prestando atenção.
Reconheço, no entanto, que essa fronteira nunca é tão limpa quanto a frase sugere. A escola também educa, pelo modo como trata os alunos, pelas regras que escolhe, pelo exemplo de cada professor. E a família também ensina, desde a primeira palavra dita dentro de casa. Não se trata, portanto, de erguer um muro entre as duas, cada uma trancada do seu lado. Trata-se de reconhecer de quem é a responsabilidade primária por cada coisa.
A escola educa como quem acompanha; a família educa como quem funda. Não é à toa que boa parte do pensamento educacional brasileiro, de Paulo Freire em diante, insiste que educar é muito mais do que instruir — é formar um sujeito inteiro, não apenas abastecê-lo de informação.
O que a cena da Copa deixou à mostra
Volto ao episódio desta semana porque ele ilustra bem o que acontece quando as duas coisas se embaralham. A pergunta que pairava — quem cuida das crianças quando a escola libera mais cedo? — é legítima e dolorosa para milhões de famílias que trabalham e não têm com quem deixar os filhos. Mas ela revela, sem querer, uma expectativa silenciosa: a de que a escola seja também o lugar onde a criança simplesmente fica, esteja havendo aula ou jogo. E quando a escola é convocada a ser esse lugar antes de qualquer outra coisa, ela passa a ser percebida não pelo que faz de mais próprio, que é ensinar, mas pela conveniência de manter alguém sob seu teto.
Não digo isso para responsabilizar as famílias, que muitas vezes não têm escolha. A vida contemporânea apertou todos os horários, encurtou as redes de apoio, empurrou pai e mãe para jornadas que não conversam com o calendário escolar. É compreensível que a escola, na ausência de tudo o mais, vire o ponto de apoio possível — e há um problema real de logística aí, que nenhuma reflexão bonita resolve sozinha.
O que proponho é apenas olhar para a cena com lucidez: cada vez que pedimos à escola que seja a casa, e à casa que terceirize a educação, afrouxamos um pouco a função de cada uma. E quem mais sente isso, no fim, é a criança, que precisa das duas coisas, inteiras.
Talvez a fala que gerou tanto barulho tenha tido ao menos um mérito involuntário: nos obrigou, por um instante, a perguntar o que esperamos da escola e o que esperamos de nós mesmos, como família. Não tenho uma resposta fechada, e confesso desconfiar um pouco de quem tem. Fico com a impressão de que conversas como essa, feitas sem o dedo em riste, com a disposição de ouvir o outro lado, valem mais do que qualquer veredito apressado.
A escola ensina. A família educa. E entre uma coisa e outra existe uma criança esperando que os adultos se entendam.
Você, que leu até aqui: como enxerga essa divisão na sua casa e na escola dos seus filhos?