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Jonathan Lamim

Professor, Escritor e Programador

Literatura fantástica: o que é, por que ler e obras marcantes

Se existe um tipo de literatura capaz de nos fazer atravessar espelhos, voar em dragões ou receber uma carta para uma escola de magia, essa é a literatura fantástica. Um gênero onde a imaginação não tem limites, a realidade se dobra e o impossível se torna natural — ao menos por algumas páginas.

Mas afinal, o que é literatura fantástica? Quais são suas obras mais marcantes? E por que você deveria incluir esse gênero na sua próxima leitura, seja você um jovem sonhador ou um adulto em busca de novos mundos?

Vidas Secas, de Graciliano Ramos

Ler Vidas Secas é como caminhar descalço por um chão rachado de sol: cada palavra arde, cada silêncio ecoa mais do que mil gritos.

E é exatamente esse o poder do livro de Graciliano Ramos, publicado em 1938 — uma obra seca na linguagem, mas profundamente humana na experiência.

A história se passa no sertão nordestino, esse Brasil profundo onde a vida parece sempre à beira da extinção. Não há cidade, não há conforto, não há promessa de futuro — só o presente bruto, árido, quase imutável. É nesse cenário que acompanhamos uma família de retirantes em sua luta para sobreviver à seca, à miséria, ao abandono.

Machado de Assis: O mestre das entrelinhas

A vida de Machado de Assis é, por si só, uma história digna de romance. Filho de um pintor mulato e de uma lavadeira portuguesa, cresceu como um “moleque de morro”, com poucos recursos e enfrentando problemas de saúde como epilepsia e gagueira.

Ainda assim, com o apoio de pais alfabetizados e o convívio próximo com os patrões de sua família, teve acesso precoce aos livros e à educação — o que, para alguém de sua origem, era uma exceção.

O lado errado da sorte

Ao dobrar a esquina, correndo com um saco na mão ao som de “pega ladrão!”, foi surpreendido por uma voz rouca:

— Entre aqui!

Ele se viu em uma cafeteria cheia de gente bem-vestida, onde sua camisa rasgada pareceu queimar-lhe a pele sob os olhares de desconfiança. Na mesa do canto, um homem de óculos segurava uma caneta, diante de folhas em branco.

Fez sinal para ele ir se sentar. Tirou os óculos, esfregou os olhos cansados e, sem dizer nada, deslizou a xícara de café na direção do intruso — um gesto lento, como quem entrega uma trégua.

Ficção de cura: o poder das histórias que acolhem e transformam

Antigamente, cafés eram lugares onde artistas e escritores se reuniam para trocar ideias e criar movimentos como o impressionismo e o modernismo. Hoje, esses espaços continuam sendo importantes, mas agora também simbolizam lugares de acolhimento. É nesse clima de cuidado e reflexão que surge um tipo de história diferente: a ficção de cura, também conhecida como literatura de cura ou healing fiction.

Esse gênero vem crescendo principalmente na Ásia e, nos últimos tempos, também tem ganhado muitos leitores no Brasil, encantando o público com suas narrativas voltadas para transformações pessoais e recuperações emocionais.

Sentido inverso

Às vezes, no meio da pressa de um dia qualquer, eu me pego observando a fumaça do café subindo preguiçosa, como se tivesse todo o tempo do mundo. E penso que talvez seja isso que falte nas nossas rotinas: um pouco mais de tempo pra olhar a fumaça, escutar o silêncio, mastigar os pensamentos.

Foi entre essas pausas — pequenas e honestas — que senti vontade de escrever de outro jeito. Não pra ensinar nada, nem pra provar coisa alguma. Mas pra conversar. Daquele tipo de conversa que começa com “senta aqui” e termina com “obrigado por me ouvir”.